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Transição energética também é uma agenda de paz

A transição para fontes mais limpas contribui para um ambiente internacional menos sujeito a choques recorrentes. Mais do que uma…

A transição para fontes mais limpas contribui para um ambiente internacional menos sujeito a choques recorrentes. Mais do que uma agenda ambiental, ela dialoga diretamente com estabilidade econômica e segurança global

Por Laura Peiter*

A escalada recente de tensões envolvendo o Irã voltou a produzir um efeito imediato no mercado global. Em poucas horas, o preço do petróleo reage, contratos futuros oscilam e a instabilidade começa a se espalhar para além da região. O que acontece no Golfo chega rapidamente ao custo dos combustíveis, pressiona cadeias produtivas e reaparece na inflação.

Esse movimento recorrente costuma ser tratado como volatilidade energética. Mas ele expõe algo mais estrutural: a dependência global de combustíveis fósseis, responsável pelas emissões de gases de efeito estufa e consequentemente pelo aquecimento global, também sustenta um sistema em que energia, poder e conflito seguem profundamente conectados.

Ao longo das últimas décadas, o petróleo esteve no centro de disputas geopolíticas, influenciando guerras, sanções e decisões estratégicas de países. Esta dinâmica persiste porque o controle de reservas e de rotas críticas continua concentrado em regiões específicas. Gargalos como o Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela relevante do petróleo mundial, mostram como eventos localizados podem desencadear impactos globais quase instantâneos.

A diferença, no cenário atual, está na velocidade e na escala desses efeitos. Oscilações no preço da energia se traduzem rapidamente em aumento de custos, pressão inflacionária e impacto sobre cadeias produtivas inteiras. Em cenários mais extremos, o risco deixa de ser apenas preço e passa a incluir escassez e desorganização econômica. Esse encadeamento revela uma vulnerabilidade central.

Economias altamente dependentes de combustíveis fósseis ficam mais expostas a choques externos e a dinâmicas de conflito que fogem ao seu controle. A dependência energética, nesse contexto, deixa de ser apenas uma questão econômica e passa a ser também um fator de instabilidade.

É nesse ponto que o debate sobre transição energética ganha uma nova dimensão. Reduzir a dependência de petróleo e gás vai além de uma resposta à crise climática, mas é uma estratégia para diminuir a exposição a conflitos recorrentes e aumentar a resiliência dos países diante de um cenário global cada vez mais volátil.

A relação entre energia e guerra raramente aparece de forma explícita no centro do debate, mas é difícil ignorar o papel que a disputa por recursos e rotas desempenha na manutenção de zonas de instabilidade prolongada. Em um sistema ainda fortemente baseado em combustíveis fósseis, essas tensões tendem a se reproduzir.

Diversificar a matriz energética, nesse contexto, ganha um significado mais amplo. Países menos dependentes de petróleo tendem a atravessar esses ciclos com maior capacidade de resposta. O Brasil ilustra parcialmente esse movimento. A presença de hidrelétricas e biocombustíveis reduz a exposição direta a choques no petróleo, ainda que o País continue sujeito aos efeitos indiretos de crises internacionais.

O desafio é que essa transição não ocorre em um ambiente neutro. O mundo ainda depende majoritariamente de combustíveis fósseis para sustentar sua atividade econômica, e momentos de crise tendem a reforçar essa dependência no curto prazo. Países pressionados por instabilidade buscam garantir abastecimento imediato, mesmo que isso contrarie objetivos de longo prazo.

Ainda assim, o cenário recente reforça um ponto que precisa ser parte do debate. A transição energética também é uma agenda de prevenção de conflitos. Ao reduzir a centralidade de recursos concentrados e disputados e ao ampliar a autonomia energética, ela contribui para um ambiente internacional menos sujeito a choques recorrentes.

Mais do que uma agenda ambiental, a transição passa a dialogar diretamente com estabilidade econômica e segurança global. Em um mundo onde crises regionais produzem efeitos quase imediatos no cotidiano, essa conexão deixa de ser abstrata e passa a ser parte central do debate.

*Diretora de sustentabilidade da Profile

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Perguntas frequentes

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Carolina Fischer

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